quinta-feira, 10 de julho de 2014

TÓXICA

Ela era tóxica. Pras pessoas que a cercavam e pra ela mesma.
Sentia dor, muita dor, sentia dor por sentir dor, sentia dor por menosprezar a sua própria dor, mas sentia.
Não conseguia mais fingir para os outros que estava bem e nem pra ela mesma.
Se sentia patética.
Observava as dores do mundo e via o quanto parecia ser pequena a sua, mas sentia.
Fazia uma espécie de auto-regressão, puxava pela memória, comia teorias de Freud e achava muitos motivos, percebera que nesse momento não vivia mais numa Matrix.
Devorava potes de Nutella como se estivesse comendo papa, apática.
Lembrava que nesse momento muitas pessoas não tinham o que comer, se envergonhava, mas a dor não ia embora.
Encontrava espaço pra falar de sua dor com algumas pessoas, mas ao final se frustrava, porque ninguém compreendia, talvez nem ela mesma, mas sentia.
''Vilanizava'' o tempo.
''Vilanizava'' a historia.
''Vilanizava'' a vida.
''Vilanizava'' a si.
Contaminava a si e as pessoas.
Estava pessimista, cercada de pensamentos auto-destrutivos, sentia e escrevia.
Tinha vergonha.
Caos e dor, muita dor.
Ela queria ser simples, apreciar as pequenas coisas, estar a passeio.
Ela era complexa, estava apática e em guerra.
Ela se odiava e odiava a vida.
Não via graça mais em nada, mas temia a morte.
Ainda bem.
Tomava remédio, dormia, não esquecia, também não lembrava, mas sentia.
Sentia que se subisse as pirâmides do Egito ao chegar no topo diria:
- E agora e daí?
Não encontrava sentido, só sabia que não sabia e queria saber.
Ela era tóxica.







sexta-feira, 4 de julho de 2014

Não é só talento

Diariamente recebo muitas mensagens de muitos jovens(wow, falou a velha) me perguntando sobre atuação, perguntando sobre minha carreira, me pedindo dicas, comentando sobre o curso que estão fazendo, ou só curiosos mesmo. Bem, não sou nenhuma Meryl Streep, mas adianto que concordo com praticamente 100% do que ela diz e acho que sua forma de pensar é que a fez se tornar uma grande atriz. Hoje li um texto com palavras dela falando sobre coisas que ela não tem mais paciência e copio aqui a frase que me chamou atenção ''Acredito num mundo de opostos e por isso evito pessoas de carácter rígido e inflexível'', ao longo da minha experiência no ramo descobri que essa é maior característica que um ator deve ter, voltarei a falar sobre.

Um padeiro não nasce padeiro, um engenheiro não nasce engenheiro, um jornalista não nasce jornalista e assim por diante. Acredito que as pessoas tendem a escolher profissões que tem a ver com suas personalidades e lapidam, ou seja aprendem uma técnica e por que na atuação seria diferente?

Com sete anos de idade nas aulas de teatro, eu já tinha aprendido que não se deve ''desconstruir'' o personagem antes de sair pela coxia e anos depois trabalhei com PROFISSIONAIS formados que ignoravam essa questão ULTRA relevante, oras, a plateia está vendo o personagem, esse personagem tem um corpo, uma voz e toda uma construção complexa que começa na mente do ator e termina no seu exterior. Como a criatura, vai e vira ''ele mesmo'' antes de sair de cena? Bom, sem querer ser anti-ética com meus colegas de profissão, mas existem profissionais E profissionais, né?

Esse exemplo que acabei de dar pra vocês se chama TÉCNICA(uma das milhões), que é aprendida através do estudo + prática e existem milhões de técnicas diferentes, desde a origem do teatro na Grécia Antiga, aos ''ski''(Stanislavski, Grotowiski e etc...) da vida, ao ''louco'' do Antonin Artaud, ao Teatro Oriental e etc, etc, etc... Técnicas de corpo, de voz e etc, etc e etc... Com o amplo estudo das técnicas o ator vai escolhendo o que funciona mais pra si mesmo.

Hoje em dia atuação tem caído na banalidade do ''NATURAL'', termo equivocado, se você tem um PERSONAGEM, você não é NATURAL, você não é você, o termo correto estaria entre ''VERDADE'' e ''MENTIRA'', lembro de escutar o Tony Ramos dizendo que o bom ator é um bom mentiroso, mas acho que um bom ator é o que se apropria do personagem e consegue dizer tudo com VERDADE. Redundante talvez, talvez as duas formas de pensar cheguem ao mesmo resultado, whatever, o importante é você ser crível e fazer com que as pessoas acreditem no que está dizendo.

Por que estou dizendo tudo isso? Porque assim como o padeiro, o engenheiro e o jornalista precisam aprender sobre suas profissões o ator também. Engana-se quem acha que é só pegar um texto e dizer como bem entender. Além do texto(fala) existe o SUBTEXTO que é o que há por trás desse texto, é possível dizer ''Vai se fuder'' em várias intenções diferentes. Ex: com ira, com deboche, com alegria e etc, etc, etc... Além do SUBTEXTO existe o SOBRETEXTO que é o que você quer causar nas pessoas com esse texto, qual é a necessidade do seu personagem? Qual a função dele na historia? O que ele está querendo dizer pro público?

Atuação não é tão simples como parece e a profissão do ator ainda é muito desvalorizada no Brasil, fora a perguntinha cretina ''Você é ator? Qual novela você fez?''. As pessoas acham que é só talento e NÃO é.

Eu acredito sim que o ator precisa ter características que são determinantes pra ser bom no que faz ou não e voltando a Meryl, saber que o mundo é feito de opostos é a principal característica, pessoas muito rígidas e com uma visão muito limitada da vida jamais serão bons atores. O ator é quase que um psicologo, precisa ter a mente aberta pra conseguir entender seu personagem, precisa saber que o personagem é a personificação do ser humano, com suas atitudes, contrastes, incoerências, escolhas, pontos de vista e tudo isso dentro do universo em que foi colocado. Se ele é vilão ou mocinho vai depender do SOBRETEXTO, lembra? O que teu personagem precisa passar pro público?

O fato é que convivendo tanto com esses personagens acabamos nos apaixonando por eles, nossa, incontáveis a vezes que caí no erro de querer defender, vai parecer esquizofrênico pra quem é leigo no assunto, mas isso pode acontecer porque a gente empresta muito da gente também, há teóricos que são rigidamente contra, ou do contrário segundo Stanislavisk você terá mais dificuldades em interpretar algo que nunca viveu. Não sou 8 nem 80, acho que sim, aprendemos não só com nossas próprias experiências, mas com a experiência dos outros também e tenho certeza que por exemplo consigo sentir a dor de uma ''traição conjugal'' sem mesmo ter sido traída dessa forma, sei o que significa uma traição, aliás sei também que o conceito de traição varia de acordo com os diferentes pontos de vista. Por isso é muito importante você ter como característica a sensibilidade, a empatia ou seja DOM de conseguir se colocar no lugar dos outros sem julgamentos(chorei).

Esse o grande barato dessa brincadeira toda, você vive muitas historias, você aprende muito com tudo isso, você cresce, não só como profissional, mas como ser humano.

Bom, essa é só uma pequenina parte do mundo que eu vivo, e essa loucura maravilhosa que é ser atriz, não tem como resumir em um texto, espero que tenha conseguido passar um pouquinho mais da complexidade que é essa profissão tão bonita, existe há tanto tempo e ainda é tão banalizada. Querem uma dica: Entrem pro Teatro, todo ser humano deveria passar por essa experiência na vida.

Com amor,

Fê.